quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Os muros e nós.

Postagem de número 100, uma marca histórica!

Quando eu tinha 2 anos, derrubaram o muro de Berlim. Todo mundo sabe o quanto isso foi (e ainda é) significativo para a história da humanidade. Não foi a vitória do neo-liberalismo ou a queda de um regime autoritário. Pode até ter sido tudo isso, segundo economistas, cientistas políticos, sociólogos, etc... Mas foi outra coisa. Foi a queda de um muro. Ele separava pessoas. Famílias, amigos, inimigos, rivais, colegas de trabalho, de bar... Essa queda foi um símbolo, um estandarte. "É hora de a humanidade quebrar seus muros!" E era (ou é) verdade. Depois desse evento, ou antes até (não sou bom em história), vive-se até então um processo de quebrar muros.

Eu cresci nesse contexto de muros em decadência. Sempre achei bonito, humanizador, poético. E ainda acho. Mas quebrar os muro não é só flores. Aliás, quem começou a quebrar muros há 20 anos, depois de observar as consequências, quis voltar atrás. Mas é tarde. Desconstruir é muito mais fácil do que reconstruir. Ou você acha que erguer um muro à essa altura vai impedir as centenas de mexicanos de entrar nos EUA? Aliás, logo, eles serão maioria no país. Ninguém pode afirmar com clareza se derrubar um muro é bom ou não. Por outro lado, se pensar demais, nunca derruba.

Como protestante crítico, não deixo de me lembrar que existe uma semelhança entre a Reforma Protestante e a queda do muro de Berlim. O muro estava lá, sólido, sufocante, uma barreira mais do que física. A pressão foi aumentando tanto que não tinha mais jeito, tinha que derrubá-lo. Lutero queria um reforma, queria construir, mas não foi possível. O sacerdócio tinha que vir ao fiel, e disso fez-se a ruptura. Mas a semelhança vai além: a queda do muro de Berlim não acabou, e tampouco cessou a compulsória divisão do cristianismo. Pois é, estamos em época de se quebrar muros, de espalhar.

E então, eu me pergunto se desconstruir dessa forma é bom, no saldo final. Porque a gente começa derrubando o muro, mas quem garante que não cai a casa? Ou não estamos num processo de perda de identidade? Será que derrubar muros não tem a ver com nossa desintegração cultural e intelectual? Não seriam partes da mesma fragmentação daquilo que propriamente nos definia? Eu só sei que, com tantos muros quebrados, não me resta onde ficar. Seria esse o motivo de tanta insegurança? Veja, eu escrevo um parágrafo inteiro de perguntas, porque nem consigo afirmar o que eu penso, se é que o que penso é legítimo. Talvez os muros fossem bons. Não todos, mas alguns. Sinto que não poderei saber ao certo. Mas é difícil construir enquanto todos desconstróem.

Nessa busca de uma honesta verdade, resta saber então uma coisa: Por quê existem (ou existiam) muros? A geração que quebrou o muro de Berlim talvez tivesse uma noção mais clara. "Nossos pais os construíram." Claro, é mais fácil enxergar as coisas quando tudo o que se vê é um muro. O objetivo de vida era destruir o(s) muro(s). como eram felizes eles. Tinha muros para derrubar. Mas e nós, que já nascemos num mundo em desmurificação? Continuamos até não restar "pedra sobre pedra" ou fazemos o ciclo histórico e reconstruímos tudo, do nosso jeito, que é mais inteligente?

A verdade é que apesar de não negar que me parece mais humano derrubar os muros, uma parte de mim se identifica com seus construtores. o homem deles é o mesmo em mim. Os muros que eles fizeram eram para conter a si mesmos, uns dos outros, para se sentirem seguros, mas nunca foi suficiente. Por outro lado, derrubar os muros não resolve nossa angústia. No fundo, só nos faz não melhores, nem piores, mas apenas mais conscientes. Conscientes de que os muros, na verdade, estão dentro da gente. E não posso viver sem a esperança de que um dia eles não existam mais.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Ops...

Queria ser gente grande...
Todo mundo no fundo quer.
Queria poder responder
mas eu só posso mesmo é perguntar.
Queria ter muita coisa
nem vejo que já tenho tudo.
Queria ser gente grande...
grande como não existe.
Queria na verdade não querer
e ser feliz sendo pequeno.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Na viagem se pensa essas coisas...

Eu faço poesia
porque não quero ser eu
Não é que quero ser outro
só não quero ser quem sou

Fazer poesia pra mim
é quebrar-me a mim mesmo
é evaporar-me
volatilizar minha essência
e fazer dela uma com o todo

Vejo então, na poesia
que lá estou inteiro
lá está Deus, e seu filho
lá estão todos!
e não se reconhece bem de mal

Na poesia, se vê essência
mais que isso, existência
se encontra o caroço da pureza
a pura verdade sem começo
nem fim, nem antônimo

Só sei que é lá que quero estar
e quero você comigo.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Rascunho nº 1

São muitas as odisséias que me trazem
ao encontro desse pequeno lápis
e seu cansado diário de bordo.
É aquela voz de dentro, voz de fora
que vem de outrora iluminar o agora
será a vida que tanto muda seu sabor?
a voz dos céus etéreos, sólida e pesada?
a inconstância da humanidade ao meu redor?
ou a certeza deste mundo se desmoronar ainda hoje...
Sei só que preciso deixar voar esse pardal
há muito que vivi e não se tornou poesia
Mentira crassa, melhor poesia não há
do que a que nunca chega aos versos.
Mas quem poderá lê-la?
Sacrifiquem-se algumas delas então
sejam compartilhadas pois
afinal não serei por muito tempo
e urge dizer aquilo que é importante.
Porque é parte de mim viver poesia
extrair a polpa do hoje
mas é também parte de mim deixar vazar o suco para o mundo.
Como não falar de Deus?
E como não experimentar
ainda que pequenos e esparsos
alguns versos sobre amar?
Eu vivo muito mais que escrevo
mas são necessários esses tolos versos

Vou me aventurar então
pois em mim encontrei força pra amar
sei que vem do alto, de longe
pois vil sendo, como poderia?
como seria paciente?
ou bondoso?
olharia pelo bem-estar de outro?
me contentaria por um segundo
em estar ao seu lado
querendo assim permanecer para sempre?
Estivesse doente, quem sabe
mas nem estive, como tantos.
Decidi e decido amar, com força
sólidas flores que se enraízam no meu coração
que a distância não consegue abalar.
Sou quem as cultiva, sendo eu mau
mesmo egoísta, agraciado fui
com o doce e o amargo de se poder amar;
e com a graça remissora de Deus
encontrar um pequeno paraíso
de ter a alma leve e um coração simples,
simples por ser puro, sincero e resoluto.
E como pode se inocentar assim
um homem tal qual?
Como pode amar uma mulher desse jeito?
Pois te digo, só existe um amor
e sua essência é puro poder
inverte nossa desenfreada corrida suicida
sem ele nada seria tudo.

Já não sei mais o que escrever
posso caçar palavras
jogá-las no papel
fazer pequena rimas
mas eu já disse.
Só quero dizer o que for necessário de se dizer
e o resto é pra ser vivido
Ainda se apresentam mil mistérios
mas o facho de luz ilumina o que preciso
siga por ele e seja verdadeiro.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Horizonte distante-ante-ante...

"Ufa!", terminou de subir no morro. O menino já estava cansado. Sentou e vislumbrou os arredores. Sorriu. De fato, o viajante estava certo, era um novo horizonte. Mas não era o primeiro. Ele se lembrou de tantos outros do passado. Aprendeu que por maior que pareça um horizonte, não se pode ver tudo nele. Tem horizontes vizinhos, tem horizontes opostos, tem até aqueles horizontezinhos dentro dos maiores. Cada um é único, importante.

O menino ergueu o pescoço pra ver o céu. Azul. Lá trás tinha sido o maior nevoeiro. Mas também não era o primeiro. Nevoeiros são belos em si mesmos. São uma mistura de silêncio, água, tranquilidade. Na verdade, também é um pouco de céu-azul que desceu pra ver os homens e ficou meio triste. Mas tem que ter cuidado com nevoeiros: "Não sai do caminho!" o viajante muito sábio alertou.

Descendo os olhos do céu azul, viu o menino emergindo da trilha que trazia até o topo. observou as rachaduras nas pedras, feridas desse mundo. O poeta estava inquieto. Buscava os montes porque estivera andando muito por caminhos desconhecidos. Seu instrumento havia mudado (os intrumentos dos poetas mudam, e eles ficam estranhando, sem saber tocar). Mas a verdade, é que ele esteava menos absorto de si, depois de muito tempo. Estava na busca da música para os olhos-verdes. Precisava cantar a Ciudad para ela. Ela que havia chegado no último vagão, um acontecimento marcante de fim-de-verão. Num raro momento, o poeta sorriu diante do seu insignificante tamanho, e na ausência de céu-azul que ele tentava apanhar.

Ouviram dizer que o bárbaro estava ocupado com suas guerras, e não ria muito ultimamente. Andou brigando, pelo que se diz, e depois ficou chorando pelos cantos da Ciudad, feito cachorro ferido. O menino se lembrou e sorriu. Lembrou-se seus joelhos ralados, olhou o céu novamente, desfrutando de seu novo horizonte. A menina lá embaixo chamou. Antes de ir, lembrou da Ciudad e de quanto ela é triste e sofrida às vezes. Mas ele sabe:

"Os bárbaros são tristes porque não vêem além de um palmo.
Os poetas vislumbram o horizonte,
mas são tristes porque sabem que nunca se chega
no céu que toca o ponto mais distante
Só o menino sabe que a Ciudad um dia vai encontrar o céu-azul,
na linha do horizonte, onde o Sol dorme à noite, onde a gente é inteiro."


E correu para brincar com olhos-verdes, como se nem houvesse mais horizontes. o poeta que continuava arranhando o instrumento se conforma em não entender, porque só meninos conseguem fazer isso.

domingo, 24 de maio de 2009

Oração nº 124 - Tomo MMIX

Senhor, livrai-me de mim
eu que decido e não sigo
Mau com cara de bom
vivo a tentar não errar
Eu que quero mas ignoro
faço o que me agrada
No fim, é o que na garganta entala
Só me resta, de testa no chão
confissão, esperança.
Sei que quem me dá essa vida
vai me ensinar a vivê-la
Ela, que me sustenta
o último estado de consciência
único caminho, graça.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Abril já tá acabando...

Quantas páginas faltam pra acabar?
É o último capítulo já?



Começo mais um livro? Ou termino os outros?
Leio até o "O FIM"? (Leio o prefácio e a introdução também?)

Sigo em frente?

Será que a gente quer mesmo que acabe o livro? Ou só quer poder lê-lo inteiro e se exibir pra si mesmo? Ou quer terminar um pensamento, entender uma pessoa, por título numa poesia?

Tem gente que se veste de rebelde inovador, põe mil títulos, não põe título, começa a ler um livro e abandona outro, não lê nada, escreve sem pensar, foge... Só tá fugindo, mas ainda assim quer se exibir...

E tem gente que se cansa, que prefere ser invisível, na esperança de no fim ter terminado pelo menos uma boa poesia. Uns quatro versos "malemal" rimados que sejam tudo, que não sobre nada fora deles.

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